Bernardo Figueiredo

Design Moderno Brasileiro

a partir da obra expressiva e atemporal do arquiteto e designer

Bernardo Figueiredo – Rio de Janeiro  

“O móvel brasileiro existe quando atende às condições próprias de nossa gente. É essa exatamente a minha preocupação ao criar um modelo: proporcionar, através do conforto, plástica, materiais e autenticidade, o encontro daquilo que é, acima de tudo, útil para quem o procure. É uma questão de identidade.” – Bernardo Figueiredo – 1963, para o jornal “Jornal do Brasil”.

Bernardo nasceu em 1934 na cidade do Rio de Janeiro no Brasil, seus pais eram brasileiros descendente de Portugueses e Italianos residentes no Brasil desde o final do século XIX. 

Iniciou sua trajetória profissional nos anos 1950, enquanto estudava na Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio de Janeiro, em meio a um cenário vibrante de afirmação do modernismo no Brasil. Suas primeiras peças surgiram desse ambiente de experimentação e de busca por soluções inovadoras.  

“Sua produção situa-se no cruzamento da arquitetura, urbanismo, design de mobiliário, design de interiores, design de stands para feiras, cultura e espiritualidade, articulando relações transdisciplinares que marcaram sua trajetória. Suas criações — algumas concebidas há mais de sessenta anos — permanecem atuais, revelando rigor formal e precisão nas respostas de projeto que soube construir diante das mais variadas demandas de seu tempo. Sua identidade profissional dialoga profundamente com o contexto cultural e social do Rio de Janeiro”.

Trecho do livro Bernardo Figueiredo, designer e arquiteto brasileiro, escrito por Amanda Beatriz Palma de Carvalho, Karen Matsuda e Maria Cecília Loschiavo dos Santos (org.,), professora titular de Design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. 

Capa Livro Bernardo Figueiredo designer e arquiteto brasileiro

Bernardo Figueiredo 1957 ano de sua formatura 

Em 2025  a Cobogó Gallery, localizada em Londres, no Centre Design Chelsea Harbour, licenciada exclusiva na Europa dos móveis criados por Bernardo Figueiredo, abriu seu showroom e mantem peças ícones expostas em sua sede. A obra de Figueiredo atravessa fronteiras, alcançando novos públicos, reafirmando sua relevância no design moderno brasileiro e no cenário internacional desde os anos 1960. 

Cadeira Prima - Cobogó Gallery

Poltrona Milhazes e Estante BF - Cobogó Gallery

Em 2024 a Acervo Bernardo Figueiredo, a Schuster Móveis e a Cobogó Gallery uniram seus conhecimentos em uma parceria internacional para divulgar, fabricar e comercializar as reedições do mobiliário de Bernardo Figueiredo na Europa.

No mesmo ano a Acervo Bernardo Figueiredo e a Schuster Móveis lançaram na Mostra Bernardo Figueiredo realizada na SP-ARTE, a cadeira dos Arcos peça ícone de Figueiredo criada para o Palácio do Itamaraty em 1967. 

SP-Arte -2024 – Poltrona Rio e cadeiras dos Arcos 

SP-Arte -2024 – Mostra Bernardo Figueiredo  

SP-Arte -2024 – Cadeiras dos Arcos, poltrona Senhor e poltrona Milhazes 

Em 2023, a exposição Bernardo Figueiredo, designer e arquiteto brasileiro foi apresentada no Espaço Cultural da Escola de Design de Belo Horizonte. 

Em 2021, a Editora Olhares lançou o livro Bernardo Figueiredo, designer e arquiteto brasileiro e simultaneamente aconteceu a abertura da exposição, homônima e com curadoria da mesma equipe da professora Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, realizada no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. O reconhecimento do nome de Bernardo Figueiredo e sua importante contribuição ao design e à arquitetura moderna brasileira alcançaram definitivamente o conhecimento do público contemporâneo.  

Este projeto foi uma iniciativa da Acervo Bernardo Figueiredo e da Schuster Móveis que entenderam a importância de documentar e narrar trajetória profissional e a obra de Figueiredo. A equipe de pesquisadoras da Universidade de São Paulo- USP, liderada pela professora doutora em design Maria Cecília Loschiavo dos Santos, realizou um estudo profundo e detalhado. Com a coordenação da produtora cultural, Angela Figueiredo e a supervisão do texto realizada por Adriana Figueiredo, filhas de Figueiredo. O resultado foi um livro bilíngue, inglês e português, que aborda de forma abrangente vários aspectos da sua obra.

Nos últimos anos a Acervo Bernardo Figueiredo e a Schuster Móveis ampliaram a coleção de reedições de peças criadas nos anos 1960, hoje em dia trabalham com 30 peças em produção seriada. 

Mostra Bernardo Figueiredo Loja Juno, Botucatu, São Paulo

Apartamento do 8° andar do Gorges Residence em Salvador - poltrona Senhor

Em 2017, em cerimônia de comemoração dos 50 anos da inauguração do Palácio Itamaraty, Bernardo Figueiredo, representado por suas filhas, foi condecorado postumamente com a Ordem do Rio Branco, devido à sua contribuição fundamental no desenvolvimento do projeto do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. 

Após o falecimento de Bernardo, em 2012, suas filhas Adriana e Angela criaram a empresa Acervo Bernardo Figueiredo com o propósito de preservar sua obra e memória, e ampliaram a parceria com a Schuster para a divulgação de seu legado.

Em 2011, as primeiras reedições foram lançadas pela Schuster Móveis com grande repercussão, impulsionando a continuidade de lançamentos da coleção de Bernardo Figueiredo. Nesta época ele próprio acompanhou próximo a equipe da Schuster a execução de suas peças. 

Adriana Figueiredo e Angela Figueiredo na cerimônia de comemoração do cinquentenário da inauguração do Palácio do Itamaraty.

Bernardo Figueiredo e Sergio Rodrigues no lançamento das primeiras reedições, na feira Casa Brasil em Bento Gonçalves – RS

Bernardo Figueiredo 2011

Em 2010, Bernardo foi apresentado à fábrica de Schuster Móveis, dando início ao projeto de reedição de sua linha de mobiliário modernista criada nos anos 1960, em série. Sonho que tinha desde os anos 1970, que era encontrar uma fábrica de móveis parceira no entendimento ideal entre design e fabricação seriada. A convivência com a equipe da Schuster, embora breve, foi extremamente rica e resultou em uma pesquisa rigorosa para adaptar a produção das peças aos processos produtivos atuais, sem perder sua essência original. Nessa fase, Bernardo convidou oficialmente sua filha Angela Figueiredo para acompanhá-lo profissionalmente — algo que ela já fazia de forma eventual. 

Em 2007, Figueiredo lançou, junto a Dpot (loja referência em desenho moderno em São Paulo, BR), a reedição artesanal e a comercialização exclusiva de sua icônica Poltrona Rio. A seguir, lançaram o sofá SO2, conhecido como sofá Conversadeira. A partir daí, sua obra foi sendo redescoberta pelo mercado brasileiro.

Angela Figueiredo representando seu pai, no lançamento da poltrona Rio, no MUBE (Museu da Escultura) em São Paulo, em 2007.

Sua arquitetura, concebida sempre com foco no ser humano e criada desde o final dos anos 1950, ao longo do tempo demonstra plena integração ao crescimento urbano, com sensibilidade estética. Seus edifícios, especialmente no Rio de Janeiro, tornaram-se parte da paisagem urbana de forma natural. 

 
Nos anos 2000, apesar de estar distante de seus móveis por alguns anos, não se afastou completamente, pois participou de palestras sobre seus móveis modernos, de mostras com outros designers e começou a prospectar, com mais intensidade, a busca por novas parcerias para reedições de seu mobiliário. 

Bernardo Figueiredo 1990

Nos anos 1990, ao voltar ao Rio de Janeiro após morar alguns anos em Porto Seguro, na década de 1980, Bernardo consolidou-se como um dos principais arquitetos especializados em shopping centers no Brasil, à frente de seu escritório Bernardo Figueiredo – Arquitetura Espacial. Permaneceu ativo em seu escritório até o fim de sua vida, conduzindo expansões e novos projetos em todo o país. 

No final da década de 1970 e na década de 1980, Figueiredo teve destaque ao projetar os primeiros shoppings centers em diversas cidades importantes no Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife. Ao longo de sua vida profissional projetou mais de 20 shopping centers.

Em sua prática, a integração entre o espaço interno e o externo e o uso de iluminação natural eram essenciais. Em entrevista comentou: “O ambiente fechado não é natural para nós. Somos solares. Não existe recurso artificial que substitua o sol e o céu azul. Trabalha-se trancado em salas. No centro da cidade, quase não se vê o céu. Quem pode, então, está abrindo uma fresta no teto para deixar o sol entrar. Quem pode ter uma abertura no teto, ver folhagens, um pedaço do céu, é um privilegiado.”  Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1981”.

Bernardo Figueiredo 1980

Características de sua personalidade e sua paixão pela vida ao ar livre, pela natureza, pelas praias, pelo mar, sua espiritualidade e admiração pela música brasileira estiveram presentes em seus projetos profissionais. Sua filosofia de vida marcou sua produção como um todo. Nos anos em que viveu em Porto Seguro, uma pequena cidade no litoral sul da Bahia, manteve seu escritório de arquitetura na cidade, onde desenvolveu projetos e defendeu áreas ambientais. Impediu o aterramento de uma lagoa para a construção de um empreendimento comercial e projetou casas, uma escola ecológica que utilizava materiais locais, como madeira, telhas de barro, taipa e energia solar, e produziu diversos projetos de urbanismo para a prefeitura local. 

Bernardo Figueiredo 1970

Bernardo despontava em projetos de arquitetura, participando de equipes em grandes construtoras e criando edifícios residenciais, comerciais e casas. Muitas vezes, associava o design de interiores ao projeto arquitetônico, o que era uma inovação para a época.  

Nos anos 1970, sua arquitetura ganhou maior destaque em sua trajetória profissional, trazendo reconhecimento, como o projeto do edifício Casa Grande, premiado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil em 1976, período em que passou a deixar seu mobiliário em segundo plano. Iniciou parcerias com grandes construtoras e, posteriormente, com a Embraplam/Multiplan, tornando-se sócio-diretor da empresa em sua fundação. Desenvolveu diversos edifícios residenciais e comerciais e tornou-se um dos precursores no desenvolvimento de projetos de shopping centers no Brasil.  

Bernardo Figueiredo 1960

A década de 1960 marcou o início do reconhecimento profissional e do movimento que impulsionaria sua longa carreira. No final dessa década, após anos de experimentações e múltiplos projetos, Bernardo passou a desenvolver estandes para feiras nacionais e internacionais, eventos que, à época eram fundamentais para apresentar ao mundo a produção industrial brasileira. Sua primeira participação internacional ocorreu em Berlim, Alemanha, onde, além de criar o estande, apresentou sua linha de móveis inspirada no conceito AMAK. Bernardo afirmava: “Nossos índios criavam um móvel perfeito como estrutura, custo e função.” Nessa coleção, ele buscava uma aproximação com esses atributos, reinterpretados à luz das conquistas técnicas e funcionais modernas. A poltrona Ipanema e o banco Rodeo são duas peças representativas dessa coleção, atualmente em produção no Brasil.   

Como queria muito viajar profissionalmente, entrei no mundo das feiras, das exposições, dos salões etc. Fui montar e projetar uma primeira feira em Berlim, promovida pelo Caio Alcântara Machado, sobre madeiras e móveis brasileiros. E, assim, os móveis me levaram para o mundo das feiras”.  Bernardo contou em entrevista em 2007. 

Figueiredo criou diversos estandes em países como Canadá, França, Itália, Bélgica, Alemanha, Polônia e Chile, além de eventos no Brasil, sempre buscando transmitir uma identidade brasileira forte e inovadora, combinada com soluções técnicas ágeis de montagem e desmontagem. Muitos desses estandes receberam prêmios por sua originalidade e qualidade, como sua participação na feira de Colônia. 

Em uma entrevista ao Jornal do Brasil em 1963, Figueiredo comentou sua visão sobre o conceito de “desenho de interiores”: “O campo é vasto: desde residências a lojas, escritórios, cinemas, teatros, hospitais. A arquitetura de interiores surge com a edificação. Basicamente deve possuir ritmo, equilíbrio, sensibilidade, lealdade”.  

Ao lado de Sergio Rodrigues, reconhecido como um dos maiores designers brasileiros, Figueiredo trabalhou na OCA, uma mistura de ateliê, galeria de arte e espaço de convivência que introduziu uma nova estética de mobiliário no Brasil. Pouco depois, abriu seu próprio estúdio em parceria com a designer e arquiteta Vera de Figueiredo, sua esposa à época, com quem já desenvolvia projetos desde o período em que eram colegas de faculdade. Atuaram de forma colaborativa em projetos de arquitetura, design de interiores, mobiliário e paisagismo entre 1963 e 1968. 

Figueiredo criou mais de noventa peças de mobiliário divididas em três linhas: residencial, corporativa e palaciana.

Logo após sua formatura no início dos anos 1960 realizava projetos importantes e com destaque, isso o levo a colaborar para a nova sede da diplomacia brasileira, o Palácio do Itamaraty, durante a transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília. O Palácio do Itamaraty foi inaugurado em 1967. O projeto foi concebido com o intuito de afirmar a identidade nacional por meio de uma estética única e universal, demonstrando ao mundo a força da arquitetura de Oscar Niemeyer, além da produção artística e do design brasileiro.

O desafio enfrentado por Bernardo, nesse contexto, foi notável. Embora os palácios, de modo geral, tenham grandes dimensões, os palácios europeus, em particular, são ricos em ornamentos. Esses ornamentos não são meramente decorativos, eles desempenham um papel crucial ao preencher a vastidão do espaço. Já na arquitetura de Niemeyer, os espaços são predominantemente limpos, sendo o vazio um elemento essencial no modernismo, ocupando um lugar de protagonismo.   

Ao trabalhar com design de interior em um espaço tão amplo, foi necessário soluções criativas para manter o equilíbrio entre funcionalidade, conforto e estética. O design de Bernardo se adaptou, criando moveis que não se perdessem na imensidão do ambiente, mas que também respeitassem a proporção ergonômica. Figueiredo encontrou soluções inovadoras, como, por exemplo, a criação de um monolito que surge do chão e se transforma em um estofado para sentar-se, com acabamento refinado, revestido com texturas que enriquecem o design.  

Figueiredo desenvolveu o conceito de “ilhas” de sofás, agrupando várias peças que se conectavam. Ele chamou essas ilhas de Conversadeiras, ocupando o espaço de maneira harmônica e evidenciando sua capacidade de integrar seus móveis à grandiosidade dos ambientes palacianos. 

Durante o processo, esteve ao lado de uma equipe de grandes nomes, como Joaquim Tenreiro, Sergio Rodrigues, Roberto Burle Marx, Manabu Mabe, Jorge Hue e Djanira, e sua contribuição foi significativa. Ele produziu vinte móveis, duas tapeçarias e criou seis ambientes, incluindo salas de reuniões e o salão de recepção, este último em parceria com Jorge Hue. 

Entre suas criações, destaca-se também a cadeira dos Arcos, que sintetiza a visão de Bernardo sobre conforto e funcionalidade. Suas curvas, esculpidas na madeira internamente e externamente, combinam-se ao assento e encosto de couro que acolhem o corpo. A peça foi inspirada nos arcos marcantes da arquitetura do Palácio do Ministério das Relações Exteriores. 

Da mesma forma, o sofá e as poltronas Rei, criados para o Salão de Recepções, ganharam notoriedade quando a Rainha Elizabeth II o utilizou durante sua visita oficial ao Brasil. A fotografia da rainha, sentada sentada no sofá assinado por Bernardo Figueiredo, marcou um momento histórico.   

Em visita ao Brasil em 1968 a rainha Elizabeth II foi fotografada no sofá Rei, criação de Bernardo Figueiredo e, 1967 para o Palácio do Itamaraty 

Cadeira dos Arcos e os arcos do Palácio do Itamaraty e o Congresso Nacional ao fundo

Os arcos do Palacio do Itamaraty, arquitetura de Oscar Niemeyer